Vive-se, mas como? Um dos legados da peça parece ser esse: é preciso estar sempre fazendo um esforço para enxergar.
Saramago parece querer chamar a atenção dos seus leitores para as questões morais que regem uma sociedade e que, em várias medidas, estão sendo negligenciadas. Essa relativização moral pode, e deve, acontecer, contanto que se pretenda a melhoria do convívio social. Isso é o que constitui a ética. Questões sócio-políticas são lançadas e talvez isso aproxime tanto o romance da realidade. O Ensaio sobre a cegueira está nessa fronteira entre o real e o ficcional, na medida em que aborda questões muito recorrentes no cotidiano das pessoas. Enquanto os ensaios do Ensaio aconteciam, um terremoto atingiu o Peru e várias pessoas passaram por situações análogas às do romance. Pessoas eram operadas na rua, não se podia sair de casa devido ao alto índice de roubos, esses com o intuito de garantir a sobrevivência, ao mesmo tempo em que o superfaturamento dos remédios prejudicava a recuperação das pessoas atingidas. Isso pareceu potencializar a certeza da atualidade do texto. Dar forma ao contexto escolhido era o grande desafio. Não era possível se falar de cegueira com tudo tão nítido. A tentativa de apagamento da cena, com a escolha do monocromo, pretende trazer para a experiência do espectador a deficiência da visão. Assim como a troca dos personagens entre os atores busca uma incerteza do que está sendo visto. Descartes já dizia que os sentidos enganam. Ao mesmo tempo em que a legitimação da existência pelo pensar parece nesse texto abrir uma brecha para o questionamento dessa existência. Vive-se, mas como? Um dos legados da peça parece ser esse: é preciso estar sempre fazendo um esforço para enxergar. Os personagens perdem a visão, que parece ser menos sensorial e mais racional, e a recuperação dessa visão parece vir acompanhada de uma crença evolucionista. No entanto, o mais interessante é a manutenção da polis, que pode ser o mesmo movimento de ida e vinda dessa visão. O "ir e vir" não é sempre da mesma forma, mas é um "ir e vir" que sugere um movimento de re-visão. Não é possível ter sempre o controle, mas é preciso estar sempre "revendo" os preceitos políticos de uma sociedade para que ela continue existindo. Esse também parece ser o legado da vida e da arte.
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